O mundo já foi dos espertos

Aí você entra na sala de recrutamento & seleção esperando por provas cabeludas, dinâmicas de grupo super-hiper-mega-blaster constrangedoras, avaliadoras que te olham de cima até embaixo. Mas aí…

… aí a pessoa do érre-agá olha pra você e pede, com jeitinho:

“Experimenta esse jeans aqui. Se ele servir, a vaga é sua”

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Pois é, minha gente.

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O grande momento

Queria sentir o ar lá no pulmão, a energia vital que move a gente. Inspirou com vontade, tentando eternizar o momento. Veio puxando devagarinho, enquanto o vento soprava em sua face e em seus cabelos. Olhou gentilmente, lançou um olhar faceiro, e sorriu bonito, sincero. Sabia que era desejado. Ela então deu um rodopio no ar, tentando tocar com as mãos espalmadas o mesmo ar que ele impregnara de si e de sua atmosfera misteriosa. Sentiu, mas não conseguiu retê-lo. O ar só passava e passava e passava.

Saudadinha

Que eu sou uma pessoa nostálgica nem preciso dizer. Sinto falta do que passou e, muitas vezes, do que ainda nem chegou. Mas sentir falta de blog? Onde já se viu isso? Pois é. Estou sentindo falta do meu Onomatopéia lá no UOL, como se uma partinha de mim estivesse lá, esquecida. Por isso, estou transferindo meu arquivo de lá pra cá. Tem muita baboseira no meio, mas fazer o quê?, essa sou eu.

Nem Édipo, nem Freud

“Marília, se eu te contar uma coisa você jura que não vai rir?”

“Ah, mãe, não posso jurar nada, vai que é engraçado… conta logo aí, vai”

“Sonhei que a Luminha tava com a pata machucada…”

“Hum, tadinha”

“Calma, ainda não acabou. Então, ela tava com a patinha machucada, toda em carne viva”

“…”

“E tava toda carinhosa, encostando a cabeça na minha perna pra ganhar carinho”

“Que fofa!”

“Aí , do nada, ela olhou pra mim e pediu ‘chama o papai?’ ”

A Luma é minha pastora belga de seis anos.

Poetas

Lar de poeta é um universo. Cheiro de papel gasto no ar, post-its por todos os lados, um sofá que não acomoda mais pessoas porque cedeu lugar a livros e mais livros. Por todos os cantos, lembretes literários. Dicionários de italiano, de francês, de sinônimos e de antônimos, de rimas, de catalão, de inglês, de português. Estantes improvisadas, arriadas de tanto peso. Não é a casa que contém uma biblioteca, mas sim a biblioteca que tem uma casa. Café passado na hora para os momentos de insônia e, se tiver sorte, de inspiração. Dois banquinhos na cozinha, o “cômodo mais nobre da casa”, um bom lugar para receber oa amigos. Papeladas no escritório com anotações das mais diversas. Na parede, entre tantas gravuras, uma de Carlos Drummond de Andrade, que ontem completaria 105 anos. Em letras miúdas, o Estrambote Melancólico, segundo o dono da casa, um dos poemas que mais sintetizam a obra drummondiana:

“Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d’alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.”