Eu

Eu, que nem gosto tanto de “preciso dizer que te amo, te ganhar ou perder sem engano”, quando ouvi esses versos com você deitado ao meu lado, descobri naquele momento que já te amava. E te amava bem antes de ouvir a melodia da música que ainda nem sua era e que agora vai ser sua pra sempre, até que um outro alguém a receba e a queira, ao contrário de você. Eu, que evito admitir um fim e toda vez que você pergunta “como vai, pequena”, te amo – ainda mais – pelo pequena e pelo resto das palavras do mundo que saem da sua boca de um jeito tão bonito que quero te carregar por aí e gritar loucamente o quanto queria não te querer mais.

Eu, que tanto me apego aos meios e preciso do amor como motivo, me engano pelo caminho.

Aprendendo a me despedir

Quando entrei pela primeira vez no Museu de Anatomia da USP, tive uma certeza: mas nem morta que eu estudaria Medicina. Passados quase seis anos, tenho mais uma certeza: antes ser médica de gente mesmo do que médica veterinária. Porque não tem coisa pior do que ver um animal sofrendo, a respiração cessando e ele lá, caladinho, sem fazer nada a não ser carregar um olhar triste.

O segredo

“O segredo é aprender a se despedir”. Quem disse isso foi uma senhora que encontrei hoje pela manhã na clínica veterinária onde meu cachorro de dez anos está internado. Ele está com câncer generalizado. Essa senhora tem mais de trinta gatos e quase vinte cães, o que me leva a pensar que ela deve saber o que está falando.

O engraçado é que, sei lá, não tem outro jeito, né? De repente tudo parece uma imensa porcaria prestes a explodir. E são tantas coisas pras quais a gente dá tchau, sem querer.