Reta final

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Foi o mundo então que cresceu

Parada no meio da cozinha, olhei em volta. Em vez de panelas, sobre o fogão havia apenas três caixas de pizza empilhadas, quase intactas. Um saco de pão fresquinho intocado descansava em cima do fornininho elétrico. É domingo. Estranho. Aliás, é domingo em casa de família que venera pão e pizza. Ou melhor, pão, pizza e almoços de domingo. Mais uma examinada no ambiente. Fui até a caixa e me servi. O cardápio do almoço é quatro queijos, apenas meia fatia. Em uma prateleira, meio escondidas, caixas e mais caixas de remédio. Ah, sim, era isso então. Remédios para a pressão alta, para a ansiedade, para a memória. E a vó lá, no hospital. Parada na cozinha, sozinha. 15 horas. De repente a ficha caiu e tudo ficou claro: então quer dizer que eu só dormira duas horas. Quase nada se compararmos com as mais de trinta que passei acordada.

Aos quatro anos, costumava me sentir perdida nos silêncios de domingo. Já vivera eu alguns momentos de solidão inventada, regadas a fantasia e fugas de casa arrependidas. O tom agora, entretanto, não parecia ser de brincadeira. O pai não sorria, o molho com cheirinho de manjericão não depurava num vermelho intenso na panela dada pela outra vó. É só silêncio. Silêncio, um saco de pão intocado e três caixas de pizza. E a vó no hospital. Filha, não fica acordada, deita aqui com a vó. Filha, eu tô deitada? Ô, Ana Maria, tô com sede. Ai, que frio, ai, que calor.

Ais.

* * *

“Vó, vamos apostar! Quero ver quem dorme primeiro! Ou eu ou você!”

“Dorme você primeiro, coraçãozinho!”

“Não, vó, dorme você… descansa… olha eu aqui, já tô dormindo…”

“Tá! Não sai daí, por favor.”

Um sorrisinho se abriu. Cafuné no cabelo suado.

Você que já me ninou inúmeras vezes, com o coração encharcado de amor, hoje depende de mim, de toda essa minha inexperiência, de toda minha disponibilidade egoísta, de todo meu carinho que não é de vó, mas sim de neto imperfeito.

* * *

Dois olhos perdidos puxando o acesso do soro com raiva. Não era molho com manjericão, era sangue tingindo a minha saia preferida. Egoísta, esquece a saia, limpa o sangue.

* * *

É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê. É preciso amar. Mm, I get high with a little help from my friends. A tristeza é uma forma de egoísmo, eu vou te dar alegria. Não adianta nem me abandonar, porque mistério sempre há de pintar por aí.

* * *

Os domingos para aqueles que não possuem amigos e família devem ser muito silenciosos. A tristeza refletida em seis fatias de pizza sobressalentes.

Eu vou te dar, eu vou te dar alegria

Bobinha que sou, algumas vezes tenho medo de expressar minha felicidade quando alguém próximo não está muito bem. Assim, em um gesto mezzo altruísta, mezzo egoísta. A tendência nesses momentos é eu fingir que nada de extraordinário está se passando e que a rotina segue o curso natural de sempre. Desculpa, mãe, desculpa, pai, desculpa, amigos do cursinho, desculpa todo mundo que não anda lá essas maravilhas. A verdade é que a única coisa que consigo pensar é “meu Deus, como me sinto infinitamente melhor agora”. Tem alguma alegriazinha se pronunciando aqui dentro, daquelas raridades que dá até frio na barriga de imaginar o tamanhão que pode vir a ser.